Mas e se for, qual o problema?

Hoje, voltando do almoço, meu namorado (sim, um homem) me manda um link com um texto falando que eu ia ficar irritada ao ler. E fiquei: lá estava ele, mais uma vez, o preconceito explícito contra as bissexuais e a generalização de tabus que nós estamos sempre tentando derrubar. No blog “Casal Sem Vergonha”, publicaram um texto com o título “Será Que Ela É? – Como Saber Se Ela Também Curte Mulher”. No texto, dão uma lista de fatores que significam que sua namorada pode ser bissexual – e você pode aproveitar essa idéia para, que maravilha, fazer sexo à três.

Primeiro de tudo, sou bissexual desde que me entendo por gente. Nunca quis fazer um menage a trois com qualquer namorado meu, porque acho que as coisas devem ser separadas. Não quero ficar com outra pessoa enquanto namoro, seja ela homem ou mulher – a pessoa que está comigo me basta porque a amo, e ponto final. Claro que algumas meninas curtem, mas pra isso não precisa ser bi: algumas mulheres podem se sentir atraídas por outras naquele momento devido à sexualidade do momento. E, no dia seguinte, vão continuar gostando de homem como sempre.

Aliás, quem mais ficou revoltada com a generalização em meu twitter (@daniellecruz) foram minhas amigas heteros. Elas diziam “Ué, sou lésbica/bi e não sabia!”. Se excitar vendo filmes pornõ com mulheres não significa que sua namorada é gay ou bi, cabe dentro da ‘situação sexual’ que é excitante, como eu disse anteriormenteao falar do menage. Mulheres heteros acham outras mulheres bonitas e olham e conversam SIM – principalmente porque querem marcar o território e é melhor ficar amigo de uma mulher do que fazer cara feia e dar a chance de ela te dar moral. Gosto musical não influencia nada – eu nunca gostei de MPB e sou bissexual. Tenho horror à barzinho com voz e violão. Minhas amigas heteros adoram!

Outros pontos como falar de sexo sem tabus, não demonstrar preconceito, ter amigos gays e gostar de ir em lugares GLS só significa que você fez uma ótima escolha ao namorar uma garota heterossexual de cabeça aberta, que não acha que somos diferentes só por causa do que temos entre as pernas.
Em tempo: eu passei a adolescência tomando banho com amigas pelas quais nunca tive qualquer tipo de atração. Mulheres reparam em outras mulheres sim, mas não com desejo e sim com crítica. O peito dela é bonito, mas será que é mais bonito que o meu? Se sua namorada pergunta se você acha o peito de fulana bonito, é porque quer ouvir “o seu é muito mais lindo, meu amor”.

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Ser descolada, moderna ou alternativa é outro preconceito burro, assim como achar que meninas que não usam maquiagem ou salto não são gays. Eu amo maquiagem e salto – que só não uso por um problema no pé – e conheço lésbicas assumidas e extremamente femininas. Assim como conheço meninas heterossexuais que são “moleques”, andam de bermuda, e não estão nem aí porque gostam do que é confortável e não ligam para vaidades.
Cada um tem o direito de se sentir à vontade com seu próprio corpo, jeito ou sexualidade. Quer saber se sua namorada é bi, lésbica ou quer ficar com uma mulher? O que funciona sempre em qualquer relacionamento é o diálogo. Se você tem vontade de fazer sexo à três ou está apenas curioso, pergunte à ela.
Ah, e se você quiser que sua namorada receba um ótimo sexo oral, é melhor aprender do que entregar ela nas mãos de outra menina. Afinal, ela deve estar esperando justamente por isso.

E deixe o preconceito e a generalização pra lá, por favor. Assim podemos todos ser felizes!

 

 

(Esse post também foi publicado no “Mais Magenta”, site oficial da Danielle Cruz, com a seguinte nota: “Não planejo ‘agredir’ ninguém, assim como respeito o Casal Sem Vergonha e seu conteúdo, mas acho que esse tipo de post trata de um assunto delicado demais para ser abordado dessa maneira. Por isso, resolvi escrever essa resposta, depois de anos de preconceito. É nisso que eu acredito – combater o preconceito e a generalização contra gays, lésbicas, trans, bis, e todo tipo de sexualidade que vocês chamam de ‘alternativa’. Nunca acreditei que o Casal tenha feito com a intenção de disseminar o ódio, apenas fizeram um post tratando de um assunto que não tem informações o suficiente pra falar, mas esta é minha luta.”)

 

Written by Dani Cruz
Dani Cruz, 25 anos, é bissexual, namora um menino e é muito orgulhosa disso. Trabalha com social media, é viciada em séries e filmes e sua maior paixão é escrever. Acredita que o amor sempre tem que prevalecer.