Nós lutamos contra a homofobia, elaboramos nossos projetos, nossas caminhadas, erguemos nossas placas, vestimos a camisa. Mas é difícil se livrar daquele resquício de homofobia que ficou intrínseco na gente, aquele que a gente sequer percebe, mas fica ali. Não é nossa culpa. Desde pequenos estamos acostumados a ouvir os adultos usando a homossexualidade como forma de ofensa, pra xingar o juiz de futebol, o cara do carro da frente e o atendente do banco. A maria sapatão e a bichinha afetada. Olha a cabeleira do Zezé e mulher com mulher dá jacaré. Então chegamos na escola, e esses termos pejorativos são a principal ferramenta de bullying. Crescemos ouvindo isso, até certa idade, muitos de nós pensávamos assim. Muitos de nós passamos por uma imensa dificuldade de aceitar o que éramos, porque, desde sempre, estávamos acostumados a pensar que ser gay é a coisa mais negativa que podia acontecer para alguém.

Eu não sei vocês, mas quando solto um “Veado!” me referindo a alguém de forma negativa, imediatamente me sinto mal, sinto aquele ranço de mim mesma. Mas escapa! E eu vejo esse resquício de homofobia em todos os homossexuais. Aqueles que julgam os gays mais afeminados e as lésbicas mais masculinizadas. Sabe aquela famosa frase “Se eu quisesse um homem, ficaria com um homem!”? Tenho certeza de que a maioria das bofinhos não deseja SER homem, só se sentem melhor vestidas daquela forma. Mas o preconceito tá ai! E ele parte inclusive de outros homossexuais!

Tem gente que acha estranho quando duas femininas namoram, ou quando duas bofinhos namoram. Sabe aquela pergunta estupida de “Mas e ai, quem é o homem da relação?”. Quem nunca ouviu essa? E o que tem de lésbica que pensa assim, não tá escrito! E quando é feminina demais, o que ela ouve? “Você não é lésbica de jeito nenhum!”. Sim, claro, afinal sabemos melhor da vida dela do que ela mesma!

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Parece que a liberdade é limitada, queremos o fim do preconceito quando nós próprias o praticamos. Não respeitamos os jeitos e trejeitos de pessoas que estão dentro da mesma luta que nós. E está encrustado nas pessoas, eu vejo que elas querem se livrar disso, que elas se sentem mal e se arrependem dos comentários maldosos, mas eles pulam da boca. No meu caso, quando pula no cérebro já quero cavar um buraco e me enterrar.

Não é nossa culpa, fomos criados em uma sociedade homofóbica e um pouco disso ficou na gente. Mas nós esperamos espanar essa camada de poeira para que a próxima geração não precise tapar a própria boca com remorso, pra que eles não aprendam essas ofensas sem sentido.

Somos assim, gostamos de mulheres, somos sapatões, sargentos, fanchonas, lésbicas, colamos velcro e gostamos de colocar a aranha pra brigar. E com fé, muito em breve esses termos não serão mais usados como ofensas.

 

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Written by Leticia Cardoso
23 anos, gastrônoma por formação, confeiteira por paixão, eterna estudante e blogayra nas horas vagas