Vários meses atrás eu tinha lido sobre um projeto de filme do James Franco que envolveria sexo gay real e tinha ficado bastante interessada, mesmo sem saber a história ou qual o motivo da criação, só porque gostei da ousadia.

O filme em questão era o hoje chamado ‘Interior. Leather Bar.’

Como não tinha lido nenhuma sinopse antes, comecei a assistir meio perdida, sem entender aquela cara de documentário, mas logo os diálogos me deixaram contextualizada.

Existe um filme chamado “Cruising”, de 1981, que é um suspense policial sobre uma série de assassinatos de homossexuais que frequentavam bares noturnos do West Village, como o The Eagle’s Nest, The Ramrod e o The Cock Pit. No filme, o ator Al Pacino interpreta um policial que frequenta os bares a paisana para investigar os crimes. Acontece que esse filme teve 40 minutos cortados pela censura da época por mostrar cenas de sexo gay explícito dentro de um dos bares. Os 40 minutos nunca foram liberados ou publicados em qualquer lugar do mundo, ninguém tem acesso, e a ideia do ator James Franco foi “reproduzir”, usando a própria imaginação dos envolvidos, os tais 40 minutos perdidos no tempo.

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Até aí, se não parar pra pensar muito, parece uma ideia simples. Mas o buraco é bem mais embaixo.

Primeiro que o James teve a ideia genialíssima de colocar no papel do Al Pacino um ator amigo que é heterossexual e que não tinha a menor ideia do roteiro ou do motivo de tudo aquilo estar sendo feito. E pra entender a genialidade, primeiro é preciso entender a importância desses 40 minutos.

Como vocês já devem saber, porque eu não canso de repetir, a homossexualidade só foi retirada do registro de doenças da Organização Mundial de Medicina (OMS) em 1991. Veja bem, esse filme foi gravado em 1981. Época ainda de grande boom da Aids sendo considerada doença apenas de gays, do preconceito massivo, dos LGBTQs circulando em subúrbios escuros escondidos como se fossem criminosos. Não era como hoje, que qualquer um entra alí numa festa gay e tudo okay. Naquela época o que rolava dentro das boates LGBTQs era muito diferente! Mais pesado, pode-se dizer. Essa galera era completamente marginalizada pela sociedade (num nível muito maior que hoje), então quando entravam na boate eles se libertavam e faziam tudo que dava na telha. Era dança, conversa, suor, couro, BDSM, sexo oral, sexo anal, drogas… tudo misturado alí, no meio da pista de dança, sem o menor pudor.

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Agora imaginem uma produção nos anos 80 que filmou isso tudo explicitamente, sem cortes, sem dublês… É claro que a censura não ia permitir que fosse para os cinemas e televisões.

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Agora pensem novamente naquele ator heterossexual completamente deslocado no meio das refilmagens dessas cenas perdidas. Se sentindo confuso, vendo toda aquela “radicalidade” do subúrbio LGBTQ dos anos 80. As expressões do rosto dele enquanto trabalhava são, talvez, o mais importante de todo o filme, pois retrata o ultraje que ainda existe disfarçado na sociedade. Todos os dias o preconceito vem sendo debatido, mas muitos dos que dizem não ter preconceito algum ainda ficam chocados, ultrajados, ofendidos quando assistem cenas como as do ‘Interior. Leather Bar.’.

A ideia maravilhosa do James Franco foi não somente recuperar os 40 minutos de história LGBTQ real, nua e crua, mas também mostrar como em pleno 2015 ainda somos hipócritas.

Quando assisti, lembrei imediatamente da briga que rolou no Brasil quando não permitiram que ‘Azul É A Cor Mais Quente’ fosse distribuído em blu-ray. Houve censura. Talvez não tão dura quanto a que houve com o filme ‘Cruising’, mas houve. Em 2015.

Aí você diz: “Aaahh, mas são apenas cenas de sexo!”

Será? São apenas cenas de sexo? Ou será que trazem contexto histórico? Ou será que antropologicamente elas são importantes? Ou será que é nossa realidade sendo jogada embaixo do tapete como poeira enquanto a realidade do sexo heterossexual é esfregada na cara da sociedade em qualquer horário todos os dias em rede nacional?

Eu estou cansada de pessoas tratarem a homossexualidade como algo que deve ser vivido apenas entre quatro paredes, pois é “feio de ver”. E vocês?

‘Interior. Leather Bar.’ é mais que um documentário. É um protesto. E um dos bons!

 

 

Written by Bianka Carbonieri
Autora do Sapatômica - 25 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante e Psicologia. Ítalo-brasileira, é viciada em café e lasagna.