C&A lançou uma coleção sem gênero. Assim como todas as anteriores.

Batizada de “Tudo Lindo e Misturado”, a C&A lançou uma nova coleção de “roupas sem gênero”. O vídeo de divulgação tem uma diversidade bacana de pessoas (mas ainda faltaram pessoas gordas), porém as fotos da coleção causaram polêmica e discussão.

Já li sites/blogs e comentários aleatórios criticando a marca, dizendo que ela só enganou, porque “de sem gênero a coleção não tem nada”. Também já vi gente dizendo que não basta usar cores neutras e chamar de “sem gênero”. Enfim… Já vi um monte de comentários criticando, quase nenhum apoiando e, no fim das contas, na minha opinião, todos eles estavam errados. Por quê?

Bom… A divulgação da C&A com o vídeo poderia ser considerada excelente! O vídeo mostra pessoas de ambos os gêneros correndo nuas por um campo e coletando e vestindo roupas aleatoriamente. Homem colocando vestido e regata grudada, calças jeans de cortes iguais, mulheres com jaquetas grandes… Passa perfeitamente a ideia de que qualquer roupa pode ser usada por qualquer pessoa.

Já as fotos de divulgação dos looks (catálogo) poderiam ser consideradas péssimas! Não sei como a marca aprovou, porque claramente o fotógrafo e produtor de moda que produziram esqueceram completamente o propósito. Não se vê mistura de gênero alguma nas roupas. Tem mulher de vestido e homem de camiseta. A única “ousadia” (que não é ousadia mais em lugar nenhum) foi um homem modelo de cabelos compridos, que eu nem vou perder meu tempo colocando aqui.

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Só que o problema real não está na divulgação, nem nas peças de roupa, nem na marca… O problema real está nas pessoas que compram.

Vêm-se falando de “roupas sem gênero” já algum tempo e quase ninguém compreendeu ainda a ideia de que a questão não está no corte ou cor das roupas e sim em quem as escolhe. É simples de entender: se eu entro em uma loja, procuro a “Seção Feminina” e lá encontro tanto vestidos quanto calças, tanto regatas rendadas quanto camisetas largas, não significa que as roupas estão agêneras. Só significa que misturaram um monte de padrões de gênero numa seção só. “Camiseta larga é coisa de homem, mas vamos colocar na seção das mulheres, porque aí vai ser ‘sem gênero’”. Notem que a roupa não mudou em nada, o padrão que é forçado em cima dela também não. Mas ela sempre foi sem gênero e continuará sendo. Porque TODAS AS ROUPAS, DESDE SEMPRE, SÃO SEM GÊNERO. Quem tem gênero é você. Ou não.

“Então o que é uma roupa ‘sem gênero’?”

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Uma roupa sem gênero é simplesmente uma roupa. O que coloca gênero numa roupa é o momento em que uma loja a localiza numa determinada seção, que é direcionada para um determinado público. O que coloca gênero numa roupa é a fulana e o beltrano que entram na loja e transitam apenas nas seções que lhe foram determinadas: o homem na seção “masculina” e a mulher na seção “feminina”. O que significa que esse movimento das “roupas sem gênero” não tem relação com AS ROUPAS, mas sim com AS ATITUDES DE QUEM AS COMPRAM ou nas ATITUDES DAS LOJAS QUE AS VENDEM. Claro que um corte que tem bom caimento em todos os corpos ajuda, mas não resolve, nem define.

Num resumo: a C&A só vai vender “roupas sem gênero” no dia em que eles destruírem completamente as divisões de seções e, literalmente, disporem as peças de maneira realmente aleatória pelo espaço. Assim, estarão apoiando que cada pessoa escolha uma peça de roupa porque gostou, porque achou bonita, e não porque alguém diz que é aquela roupa que ela deve usar por ser quem é. E você só vai comprar uma “roupa sem gênero” no momento em que abraçar esse contexto. No momento em que você, homem, comprar um vestido porque achou bonito. No momento em que você, mulher, comprar uma gravata porque achou bonita. Ou seja, nós só vamos comprar “roupas sem gênero” no momento em que desconstruírmos nossas noções daquilo que é ‘masculino’ e ‘feminino’ na moda e colocarmos isso em prática no nosso dia a dia. E esse processo é algo natural pra quem procura desconstruir padrões, como, por exemplo, o Jaden Smith, que utiliza no seu dia a dia as roupas que lhe apetecem, independente do que digam que ele deveria usar.

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Então, enquanto isso não acontecer… Enquanto não formos todos “como Jaden Smith”… Pode mudar o corte, a cor, a disposição, as fotos, o vídeo, o comercial… E nada fará diferença. Porque a diferença/mudança está em quem consome.

Como você consome as suas roupas?

 

Written by Bianka Carbonieri
Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante e Psicologia, é viciada em café e lasagna.