Uma coisa muito importante que eu aprendi nesses anos todos envolvida em ativismo, é que é preciso saber separar as coisas. A nossa vontade mesmo era poder ter um único grito, uma única bandeira e poder lutar por ela com todas as nossas forças, mas a verdade é que cada ser humano é um mundo, cada ser humano tem uma necessidade, cada grupo tem uma dinâmica diferente e é enxergado/tratado pela sociedade também de uma maneira diferente.

Quando ouvi sobre feminismo pela primeira vez, 13 anos atrás, eu não tinha noção de tudo que teríamos girando em torno do feminismo hoje. Existem vertentes (como o feminismo radical ou o feminismo interseccional etc). O feminismo que usa nomenclaturas em inglês, não atinge a necessidade da mulher periférica que não tem acesso a um curso de inglês para entender o que você está dizendo. O feminismo que não aborda o racismo, não atende a necessidade da mulher negra, que sofre violências específicas como, por exemplo, a hiperssexualização e comércio do corpo da mulher negra (Globeleza). E, me enfiando nesse mundo todo, tentando entender as necessidades de cada vertente do feminismo, comecei a aplicar o mesmo raciocínio na comunidade LGBT. Foi quando me bateu a luz: os preconceitos que eu sofro não são iguais aos que um homem homossexual sofre. E eles vão até mesmo além.

É O QUÊ?!

Homofobia caracteriza o preconceito/ódio contra pessoas homossexuais. Se a pessoa é homofóbica, ela vai querer te impedir de amar uma pessoa do mesmo sexo e tentar impedir que você adquira direitos civis iguais aos dela. Você pode ser agredido verbalmente e fisicamente, pode até ser assassinado por ser homossexual. Todos sabemos disso.

E quando uma mulher é homossexual? Lésbica, né. Vamos usar mais a palavra lésbica, porque ela é importante para a nossa visibilidade.

Em primeiro lugar, quando um homem diz que é gay, ninguém contesta. Podem até não aceitar, sentir ódio, mas ninguém vai contestar um homem que diz que gosta de transar com outros homens. Eles vão aceitar ou ser preconceituosos, porém não vão ficar duvidando. Mas a mulher quando diz que é lésbica, logo de cara sofre um preconceito muito característico da LESBOFOBIA (preconceito contra lésbicas): ela tem que ouvir que isso é só uma fase de descobertas, que é comum entre mulheres, que o que ela precisa é apenas encontra o homem certo, que a pegue de jeito e que a “faça mulher”. Invalidando completamente sua identidade e sua orientação sexual.

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Quando a sociedade finalmente resolve levar a sério sua posição enquanto mulher lésbica, vem a fase da homofobia propriamente dita. Que é o ódio que sentem dessa mulher por ela se relacionar com outras mulheres.

Estabelecida enquanto mulher lésbica na sociedade, vem o machismo. Uma mulher lésbica só é bem tratada pela sociedade se ela tiver uma beleza padrão, uma beleza que agrade aos olhos masculinos, e que os faça pensar que eles podem entrar e participar a qualquer momento. Afinal, é claro que uma mulher não pode se sentir completamente satisfeita só com outra mulher, ela precisa também de um homem. E como assim ela ter o cabelo curto ou usar roupas masculinas? Que absurdo! Tá querendo virar homem? Tá querendo assumir um papel masculino na sociedade? De jeito nenhum! Mulher não tem capacidade pra isso. Isso não é coisa de mulher. Mulher tem que ser delicada, tem que ser frágil, tem que ser passiva. Tá querendo virar homem? Vai ser tratada igual homem. E mete a porrada.

E quando essa mulher lésbica atinge os padrões de beleza impostos pela sociedade masculina, vem a hiperssexualização de seus relacionamentos. O relacionamento de uma mulher lésbica não é encarado pela sociedade como um relacionamento qualquer. Não. Ele é encarado como material rico para pornografia, para mexer com o imaginário masculino, para servir de fetiche, de fantasia. Pesquise a palavra “lésbica” no Google e veja os resultados, se você acha que eu estou exagerando. Foi uma pesquisa dessa que me fez colocar em prática a ideia da criação desse blog.

O buraco é muito embaixo. Uma mulher lésbica não sofre apenas homofobia. Ela sofre homofobia, sofre machismo, sobre sexismo, sofre hiperssexualização, sofre objetificação… Ela sofre enquanto mulher e sofre enquanto homossexual.

E esse tipo de destrinchamento pode ser feito em todas as vertentes. Você pode localizar os preconceitos sofridos especificamente por cada letra da sigla LGBT. Basta para pra pensar. Os preconceitos que uma mulher trans lésbica (por exemplo) sofre, já é também diferente dos preconceitos que uma mulher cis lésbica sofre.

Agora você compreende o que engloba quando falamos sobre LESBOFOBIA – o preconceito contra mulheres lésbicas?

Nesse MÊS DA VISIBILIDADE LÉSBICA, vamos refletir sobre as situações que se repetem em nossas rotinas, pois só assim poderemos desconstruir e avançar.

Conhecimento é tudo. É o que nos dá argumentos, razão e força para lutar.

Written by Bianka Carbonieri
Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante e Psicologia, é viciada em café e lasagna.