Annie Gonzaga, ou melhor, Ganzala, como ela assina suas artes poderia dizer que sua infância e adolescência foram ótimas, com brincadeiras dessas que até hoje acontecem na periferia de Salvador, no bairro de Saramandaia. Soltar pipa na laje e brincar de bolinha de gude eram suas atividades preferidas. Tudo seria digno de boas memórias, uma criança solta na rua, “misturada” com os meninos, se o bairro não fosse um dos mais perigosos da cidade, a mãe soubesse lidar com o fato de ter gerado uma filha negra e a lesbofobia que sofreu por aparentar o estereótipo “sapatão” fosse mentira.

“Sou filha de pai negro e mãe negra mestiça. Tive uma infância muito violenta porque ela tinha um certo desprezo pela minha pessoa, por eu ser mulher e negra. Desde um puxão violento para pentear o cabelo, agressões físicas, até o ponto de uma tia minha pedir para me criar por que a vizinhança já estava a ponto de chamar o Conselho Tutelar para tomar a guarda dela. Eu tive um irmão que nasceu com a epiderme clara, que era preferido dela, e eu era a desgraça” , conta.

“Mãe, afrosapatão, filha de orixás, aquarelista, grafiteira e artivista”, ela define. Muitos obstáculos foram enfrentados para que hoje ela pudesse viver de arte, gritar aos quatro cantos quem é, de onde vem e para quê veio ao mundo. No seu caminho, foi impedida de exercer sua identidade pela própria família, por amigos; a arte, o racismo, machismo, misoginia e até mesmo ao educar sua filha, Lila.

A Arte Lésbicas Negra

O embate com a sociedade lesbofóbica era claro para uma artista negra e periférica. Suas artes sofreram um boicote pelos grafiteiros, as ações sob os muros fizeram com que, por algum tempo, Annie deixasse de grafitar, mas também mostraram uma nova habilidade da artista, pinturas em aquarela.

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Written by Bianka Carbonieri
Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante e Psicologia, é viciada em café e lasagna.