Por volta do ano 630 aC, na de Ilha de Lesbos (Grécia), nascia Safo, uma das primeiras poetisas do mundo ocidental e a mais conhecida da época. Ela chegou a ser considerada por Platão como a mais sábia musa grega!

E o que ela tem a ver com lesbianidade? Bom… Em primeiro lugar ela era lésbica, em segundo ela escrevia poemas maravilhosos sobre suas relações sexuais e amorosas com outras mulheres e revolucionou a sociedade.

Não é que a galera ficou chocadíssima com ela por ser lésbica, afinal, naquela época, a relação sexual entre pessoas do mesmo gênero era muitíssimo comum (tanto para homens quanto para mulheres). O que não era comum era essas relações atingirem níveis de romantismo, de relacionamento “sério” e, principalmente, atingirem o nível de uma mulher falar sobre outra com a mesma liberdade que um homem.

Fazendo parte da sociedade culta, Safo organizou na época a primeira academia de mulheres, onde ensinada música, dança e poesia. Naqueles tempos mulheres eram consideradas companheiras e não estudantes. Não era comum mulheres adquirirem conhecimentos culturais e históricos, então foi extremamente revolucionário essas mulheres se ocuparem em estudar, compor e declamar poesias, atividades que eram estritamente masculinas. O que elas faziam era pegar grandes obras da época, escritas por homens, e dar a visão delas. Elas falavam sobre a experiência de ser mulher, da cultura, da admiração à natureza e às mulheres.

Por conta da influência de Safo na Ilha de Lesbos, surgiu até a palavra “lesbiar”, que significaria imitar as mulheres de lesbos, ou seja, deixar o ambiente domiciliar e adentrar o mundo da cultura, debate e sexualidade – que até então era liberada apenas aos homens.

“Alguns homens dizem ser as cavalarias, outros dizem ser os soldados, e outros dizem ser as naus a coisa mais bela sobre a terra negra. Mas eu digo que o mais belo é o que amammos.” – Safo

Os poemas que Safo escrevia tinham descrições eróticas e declarações de amor às suas companheiras, principalmente Átis, que foi tirada da academia por seus pais devido a reputação cada vez mais liberal e rebelde que adquiria por causa desse grupo criado pela poetisa. Na idade média, devido aos poemas tão claros e descritivos, sem um pingo de pudor sexual, ela ficou taxada de prostituta, de ninfomaníaca e grande parte dos textos dela foram queimados por monges e padres medievais.

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Na época, da Grécia Antiga, apesar de não se chocarem com homossexualidade, mulheres eram vistas como uma maldição, um mal necessário. Obras como Teogonia, de Hesíodo, reconta a criação das mulheres com o mito de Pandora, a primeira mulher da humanidade criada como um castigo para os homens que tentaram roubar a tocha de fogo de Zeus. A visão mais positiva das mulheres que podemos encontrar nas obras gregas clássicas como Homero é aquela da esposa recatada e submissa.

Podemos concluir que a grande revolução feita por Safo foi pelo fato de ela ter sido uma mulher ousada, independente, muito a frente de sua época e que, com certeza, tem suas ações refletindo até hoje na sociedade.

 

A Átis

Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:

“Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “Seja feliz”, eu disse,

“E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas, no seu colo,
– Rosas, violetas, açafrão –
Trançamos juntas! Multiflores.

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros

Da sua pele em minha pele!
[…] Cama macia, o amor nascia
De sua beleza, e eu matava
A sua sede” […]

Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante.

– Adolescência, adolescência,
você se vai, aonde vai?
– Não volto mais para você,
Para você volto mais não.

Written by Bianka Carbonieri
Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante e Psicologia, é viciada em café e lasagna.