412_automutilacaoadorquealivia

 

Quando pensei em escrever sobre esse assunto imaginei que seria fácil… Mas eu estava enganada.

Comecei narrando em terceira pessoa, como se não fosse eu a personagem principal dessas memórias. Aquela menina, da primeira versão do texto, era anônima porque vivia anestesiada. Até que, conforme fui escrevendo, fui partilhando essas histórias com pessoas conhecidas, e fui empurrada de narradora para protagonista. Até quando eu e todas essas mulheres terão nomes fictícios? Agora, definitivamente, esse texto é sobre mim e outras mulheres.

Ouvindo os relatos de algumas amigas que passaram pelas mesmas coisas, a impressão que dava era que tínhamos morado na mesma casa, tínhamos os mesmos pais e o mesmo impulso incontrolável de “se cortar para se purificar”.  A dor de ouvir uma história como a nossa é proporcional ao alívio imediato de se sentir mais real, visível. Como eu, as outras meninas, nessa fase da adolescência, se sentiam envenenadas, sujas. Nossos corpos chegavam ao limite. O sangue que corria livre na veia dos outros, na nossa ardia embaixo da pele, gritava pra sair. E a dor do corte? Inexistente não seria a palavra exata. Porque ela está lá. Na mistura estranha de ardência e prazer, como as unhas que coçam uma picada, a mão que corta alivia a dor dilacerando a pele.

A primeira vez que li esse depoimento não acreditei. Como alguém que parecia imune a traumas e processos auto destrutivos pudesse passar pela mesma coisa que eu? Procurei ainda mais na internet e achei outras falas de Angelina Jolie sobre sua experiência com a auto mutilação. No exemplo dela, conclui que é possível se mostrar vulnerável sem que isso prejudique a carreira ou até as relações pessoais.

Olhando as tatuagens e as fotos da filmografia de uma Angelina Jolie suada, armada contra mafiosos e ladrões de tesouros, fiquei com uma coisa na cabeça… As “bad girls” sempre se cortaram na adolescência ou meninas que se cortam viram “bad girls”?

Foi quando, quase que sem pensar, digitei no Google “celebridades que se auto mutilam”. Logo na primeira página das imagens, um rosto jovem, inocente e de traços  latinos me lembrou de algumas amigas da escola e até, porque não, de mim mesma, só que mais nova. Quem diria… Demi Lovato, a queridinha da Disney, coleciona troféus e cicatrizes. A premiadíssima atriz teen, começou a se cortar com 11 anos.

“Era uma maneira de expressar a minha vergonha, de mim mesma no meu próprio corpo. Era como combinar o que se passava dentro de mim com o meu corpo físico, o lado externo. As vezes minhas emoções estavam tão a flor da pele que eu não sabia o que fazer. A única forma de alívio rápido era descontar em mim mesma.”

São muitas as celebridades que vivem intensos transtornos psicológicos, mas ainda são poucas que usam suas experiências como instrumento de transformação. Se todas elas pudessem dividir suas histórias com o grande público, nós teríamos ao nosso alcance uma arma poderosa: a visibilidade.

Hoje eu vejo o quanto precisei de informações e algum tipo de ajuda. Por muito tempo, não tive acesso ou não sabia como encontrar. Talvez isso tivesse feito alguma diferença no meu processo de cura, mas acredito que hoje, depois de ser protagonista e espectadora, eu possa com minha experiência, ajudar algumas pessoas que passam pelo mesmo problema.

Fiquei impressionada com o número de mulheres que me contaram sobre episódios de auto mutilação: três em cada cinco mulheres disseram ter se cortado com objetos pontiagudos, provocado queimaduras com cigarro, perfurações, arranhões e auto espancamento. Esses atos tomaram lugar, na maioria das vezes, na adolescência. Nesse grupo, pelo menos uma ainda repete esse comportamento na vida adulta. Em mais de um artigo sobre o tema, li que a repetição compulsiva e frequente da auto mutilação é um fator de risco e pode levar ao suicídio.

Um dos depoimentos mais impressionantes que me fez questionar ainda mais a falta de visibilidade, foi o de uma menina de 20 anos, que falou com lágrimas nos olhos:

Leia também:  Suzane von Richthofen se casa com sequestradora na prisão.
“Aconteceu pela primeira vez quando eu tinha oito anos. Eu estava deitada no sofá da sala vendo TV, quando meu irmão mais velho deitou do meu lado, apertou minha cintura [eu fiquei imóvel imediatamente], em seguida esfregou suas pernas nas minhas, deslizou suas mãos para o meu rosto, segurando com brutalidade e
me forçou um beijo na boca que pareceu ter durado uma eternidade. Permaneci ali, sem poder me mover ou falar qualquer coisa. Quando ele se levantou, ajoelhou do meu lado, pegou uma mecha do meu cabelo, arrancou com força, cheirou com um sorriso no rosto e saiu. Desde então [como autopunição], sinto necessidade de me cortar e me queimar para aliviar essa angústia que rasga meu peito como uma lâmina. Tenho vergonha de mim mesma.”

Não sou profissional de saúde mental mas algumas coisas parecem ter ajudado muitas meninas que conheço. Por exemplo, é importante admitir que algo está errado pra depois dividir a experiência com alguém de confiança. Se não conseguir falar, escrever também é uma boa maneira de começar, identificando o que dispara a vontade de se ferir, que situações ou sentimentos intensos a fazem sair do controle etc. A partir daí, o ideal seria procurar ajuda profissional.

Há muitos psicólogos e psicólogas aptos a lidar com diferentes questões emocionais, você só precisa encontrar alguém de sua confiança e se sentir a vontade para falar sobre seus problemas.

Criar grupos de ajuda mútua, conversar com pessoas que tiveram o mesmo problema, contar com a ajuda de amigos e familiares é importantíssimo.

Lembre-se: você não está sozinha.

 

[hr]
Alguns filmes que falam sobre o assunto:

Quem nunca viu “Garota Interrompida”? A cena em que Lisa (Angelina Jolie) apaga um cigarro no braço já cheio de cicatrizes?

• Garota Interrompida (1999) – Direção: James Mangold
• As virgens suicidas (2000) – Direção: Sofia Coppola
• Aos treze (2003) – Direção: Catherine Hardwicke
• Cut: Teens and Self Injury (2009) – Direção: Wendy Schneider (site oficial)

Site Oficial: http://www.cutthemovie.com/


ONDE PROCURAR AJUDA?

Em São Paulo, o Ambulatório Integrado de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas (IPQ – HCFMUSP), oferece tratamento gratuito e especializado para este e outros transtornos do impulso.

Entre em contato pelo telefone: (11) 2661-7805
Acesse o site: www.amiti.com.br

 

CVV (Centro de Valorização a Vida) – www.cvv.org.br
(Programa de Apoio Emocional, gratuito, oferecido por voluntários orientados a lidar com diversas situações emocionais.)

 

 


Written by Denise
Denise Bertolini é pisciana, tem 24 anos, é designer de interiores e feminista. Apaixonada por humor inteligente, crítico e irônico. Disk jockey nas horas vagas.