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Nós já falamos aqui no Sapatômica, na coluna gay, sobre as dificuldades enfrentadas ao assumir-se homossexual para a família e sociedade. O que ficou faltando foi contar uma história real sobre o assunto.

Vocês já me conhecem como Bianka ou Decooy – ou Dicuy -, eu tenho 21 anos e sou lésbica assumida desde os 13. Alguns anos atrás, quando eu tinha 18, escrevi um texto para outro site LGBT contando em detalhes como foi o meu processo de saída do armário. Esses dias encontrei o texto e relembrei muitas coisas que já passei na minha vida. Das dificuldades, medos, rejeições… e pensei: Imagina quantas gurias estão sofrendo nesse momento o que eu sofri quando escrevi isso? Nada melhor do que compartilhá-lo pra que elas lembrem que não estão sozinhas e que vão sair dessa, assim como eu sai!

Lembrando que o texto é antigo e fiz apenas uma adaptação no final para atualizar e acrescentar alguns acontecimentos. Espero que vocês se identifiquem e que esse post alcance os corações certos!

 

 

Sempre li em vários blogs mulheres de mais de 20 anos contando como foram suas respectivas experiências de saída do armário. A maioria havia saído do armário com uns 16 ou 18 anos, algumas saíram com um pouco mais. Mas, nunca li em nenhum blog uma garota como eu contando sua história.

Muito prazer. Eu me chamo Bianka, tenho 18 anos, nunca estive no armário e me assumi lésbica para os meus pais e todo o mundo com 13 anos.

A maioria das mulheres mais velhas que conheço ficam surpresas quando eu digo minha idade e que já sou assumida. Demorou certo tempo para eu peceber que é um pouco difícil encontrar garotas que se assumiram aos 13 anos, mesmo na época em que vivemos. Hoje em dia, garotinhas de 13 anos já tem relações homossexuais, mas apenas as amigas sabem. Quando eu tinha essa idade, estava chorando litros, entrando em uma depressão profunda, tentando fugir de casa e cometer suicídio, tudo por meus pais não aceitarem minha condição. Bem, permita-me contar desde o começo.

Desde pequenininha, lá pelo 7 anos, eu já sentia atração pelas minhas amiguinhas, tinha beijado minha vizinha e mais um monte de coleguinhas do primário. Você deve estar achando isso engraçado, não é mesmo? Pois é. Eu não achava! Para mim, aquilo era coisa muito séria, não era apenas uma brincadeirinha de criança. Eu sabia muito bem o que queria e não tinha medo ou receio disso. Não tinha sonhos de príncipe encantado, eu sabia muito bem que, na verdade, eu queria era salvar a princesa. Conforme o tempo foi passando e eu crescendo cada vez mais, passei a sentir necessidade de compartilhar com meus pais o que se passava em meu coração, pois aquilo havia se tornado um peso. Parecia que eu carregava quilos de concreto nas costas, que estava fazendo algo “errado” ao esconder os fatos dos meus pais, e eu já não podia mais suportar. Mas sabia que aquilo não era lá a coisa mais comum do mundo, então tinha medo de contar e magoá-los. Não, eu nunca tive medo do que estava acontecendo comigo, meu medo era machucar os meus pais.

Minha mãe foi criada dentro de uma igreja Adventista do 7º dia, meu pai nunca foi muito religioso, mas aprovava que minha mãe me criasse a base dos ensinamentos da bíblia. Todos os sábados, quando ia à igreja, me sentia culpada por estar lá dentro, queria sair correndo. Só eu sei o quanto doía permanecer lá dentro ouvindo que eu era uma pecadora e não ia para o céu. Alguns anos depois, minha mãe deixou de frequentar a igreja por questões pessoais, mas continuou muito fiel.

Eu já estava com 13 anos e tentava namorar com os garotos do colégio. Até que eu fazia sucesso, muitos garotos queriam ficar comigo. Eu beijei alguns por pura tentativa, afinal, quem sabe as coisas não tinham mudado? Mera esperança, nada nunca mudava! Eu sentia nojo quando beijava algum garoto (ou simplesmente não sentia na-da) e não queria que eles tocasse em mim, era horrivel, então decidi que ia parar de tentar. A partir daquele dia, só ficaria com quem eu realmente quisesse, nada de tentivas.
Foi quando eu conheci uma amiga da minha irmã mais velha. Ela tinha 18 anos, era muito bonita e eu investi até que ela resolvesse me dar alguma atenção. Um dia fui visitá-la em seu trabalho, que era pertinho do meu colégio para entregar uma carta que minha irmã havia pedido. Nós demos umas voltas e paramos em um jardim para conversar. Conversamos durante horas e, quando fui beijá-la no rosto para me despedir, ela virou e acabamos nos beijando. Eu senti um alívio tão grande que chega a ser inexplicável! Naquele momento eu tive a certeza de que nada havia mudado e disse a mim mesma “É isso que eu quero pra mim”. A partir daquele dia passei a ter uma vida mais ativa com relação a homossexualidade. Foi quando eu me apaixonei de verdade pela primeira vez.

O nome dela era T., ela tinha a minha idade, cabelo loiros, pele muito branca, um corpo lindo, olhos puxadinhos cor-de-mel… enfim, era a garota mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida! E pra completar: era a garota mais popular do colégio. Sim, caras amigas! Ela era o tipo de garota impossível, que escolhia a dedo os caras mais gatos do colégio e que ninguém nunca imaginaria que ela pudesse olhar para uma garota com segundas intenções. Pois, todos estavam errados. Ela olhou, sim, mas olhou para a minha melhor amiga, com quem ela já tinha uma forte amizade. Nossa! Como eu sofria. Acreditam que eu fui cupido? É… eu ajudei minha melhor amiga a conquistá-la. Com isso, acabei fazendo muita amizade com a T. Foi aí que começaram os problemas.

Minha amiga estava muito apaixonada por ela, mas depois de me conhecer, a T. acabou se apaixonando por mim. Ela não pensou nem 2 vezes pra se declarar e dizer que jogaria tudo para o alto e pra ficar comigo. Eu, chorando igual uma idiota, fui atrás da minha “melhor amiga” para contar e dizer o quanto eu sentia muito e que não queria ter atrapalhado as duas (pior que era verdade). No meio dessa conversa super sincera entre eu, a T. e a minha “melhor amiga”, eu descobri que a minha “m.a.” tinha tentado mil vezes me prejudicar com outras pessoas. Pelas costas ela era uma cobra! Decidi que não ia mais me importar com ela. Eu e a T. começamos a namorar e fomos felizes para sempre.

O QUÊ?! Felizes para sempre? hahahaha. Só se fosse um sonho!

Eu e a T. estavamos mais apaixonadas do que nunca. Sabe aquele casal mega brega que dá até vontade de vomitar? Nós ficavamos horas no telefone todos os dias (e antes eu odiava telefone – aliás, voltei a odiar), escreviamos cartas uma para a outra todos os dias, nos viamos todos os dias no colégio, ficavamos naquele chamego (nada exagerado, apenas abraço, carinho, etc). Até que: Apareceu o colégio no meio do caminho. Sim, a porcaria do colégio resolveu se intrometer!

Uma sucessão de situações extremamente constrangedoras. Por exemplo: No meio de uma Festa Junina a diretora achou que devia chamar nossa atenção, nos expondo como dois seres que não mereciam um pingo de respeito, dizendo que estavamos incomodando as outras pessoas presentes na festa. Isso tudo porque estavamos sentadas no chão abraçadas. Como eramos muito educadas, decidimos sair da festa e dar uma volta em outro lugar. Depois desse dia virou festa, todos os funcionários do colégio se acharam no direito de dizer o quisessem para nós duas. Nos tratavam com diferença, faziam de tudo para deixar uma longe da outra, diziam que estavamos atrapalhando as aulas (sendo que nem estudavamos na mesma sala). Uma vez uma auxiliar de limpeza do colégio tentou me expulsar do banheiro feminino.

Um belo dia, eu estava numa aula de ciências escrevendo uma carta contando do meu namoro para uma amiga que não via há algum tempo. Enquanto isso, a professora estava corrigindo a lição da aula passada na lousa. Ela não parava de olhar para mim, até que, quando eu terminei minha carta e estava guardando, ela puxou da minha mão e disse que não me devolveria enquanto eu não parasse de fazer outras coisas durante a aula dela. Não discordei, achei que ela estava mais do que certa por exigir atenção em suas aulas. O problema é que passou o resto do bimestre e ela não me devolveu a carta; e eu já estava ficando preocupada. Chegou o dia da reunião dos pais.

Tentem imaginar comigo a cena enquanto lêem:
Eu estava sentada perto do portão da diretoria esperando minha mãe e olhando para o corredor. De de repente, minha mãe sai da sala e vem andando no corredor com a cara mais brava e decepcionada que eu já ví em toda a minha vida. Ela se aproximou de mim, sem olhar para o meu rosto, colocou a mão no bolso da calça, jogou um papel em cima de mim e disse: “Que porcaria é essa aqui?”. Quando eu abri o papel… sim, era a minha carta.

Eu tive vontade de entrar naquela maldita sala de professores e enfiar um soco na cara da desgraçada da professora. Como ela conseguiu ser tão inconveniente? Será que ela não parou nem um único segundo para pensar em quão sério era aquele assunto? Ela não pensou que eu poderia estar esperando o momento certo para contar aos meus pais? Não pensou que ler aquela carta poderia machucar muito a minha mãe? Aquela maldita professora não pensou que aquele era um assunto estritamente familiar e que ela não podia ter se metido de forma tão brusca? Droga… eu não entendo como algumas pessoas podem ser tão más com as outras.

A minha reação foi dizer: “Mãe, me perdoa”.

Nós fizemos o caminho todo do colégio para casa em silêncio. Estavam passando milhares de coisas na minha cabeça. Eu queria consertar aquela situação, mas não sabia nem como começar e minha mãe não ajudava muito. Chegando em casa eu tentei conversar, mas ela disse que não queria falar sobre aquilo ainda, então eu fui para o meu quarto e deixei-a sozinha. Provavelmente ela chorou todo o tempo que ficou dentro da cozinha olhando para o nada.

Por mil vezes eu quis dizer a ela que tudo não passava de um mal entendido e que eu gostava de garotos, que ela podia ficar tranquila, pois a filhinha dela um dia iria se casar com um bonito homem e dar a ela lindos netinhos. Por mil vezes eu quis gritar “É isso mesmo e ponto final”. Por mil vezes eu quis enfiar uma bala na minha testa pra que tudo aquilo tivesse fim. Por mil vezes eu quis nunca mais beijar ninguém, virar uma pessoa assexuada, para que meus pais não sofressem. Por mil vezes eu me senti aliviada por finalmente ela ter descoberto. Por mil vezes eu me odiei. Por mil vezes eu não soube de mais nada.

Eu só tinha algumas certezas: 1. Eu sou lésbica, 2. Isso faz minha mãe sofrer, 3. Eu não poderia consertar isso mesmo se eu quisesse.

Todos os dias eu via minha mãe com os olhos inchados, o olhar de desaprovação, o rosto bravo. Sentia o desânimo dela dentro de casa, sentia a tristeza dela antes de dormir. Ela me evitava, não queria olhar nos meus olhos, não queria falar sobre o assunto, tentava fingir que nada estava acontecendo. O meu medo era nunca mais ter minha mãe de volta. Eu não entendia se ela me odiava ou se apenas não sabia o que fazer, assim como eu.

Eu entrei em depressão profunda, me machucava todas as vezes que ia tomar banho, tentei me matar, meus poemas começaram a ficar cada vez mais sombrios… eu me odiava tanto que mal cabia em mim. Estava totalmente desesperada!

Foi assim, até o dia que ela decidiu contar tudo ao meu pai. Eu já estava calejada, não sentia o mesmo medo. Meu pai entrou no meu quarto, sentou na cama e disse: “Filha, sua mãe me disse que você está com algumas dúvidas… eu quero que você converse comigo”. Eu respirei fundo e decidi que não tentaria mais evitar aquela situação. “Pai, já faz muito tempo que eu sei que não sinto atração por garotos. Eu já tive relações com garotas e, infelizmente, sei que é assim que eu sou. Me perdoa se eu não posso mudar, eu juro que tentei. É isso”. Eu estava esperando dele a mesma reação que minha mãe teve ou pior, mas ele apenas disse “Eu te amo e quero que você seja feliz, não importa como” e me abraçou. Quando ele saiu do quarto e fechou a porta eu chorei por horas até cair no sono. Naquele momento eu tive certeza de que havia me tornado forte o bastante para enfrentar as consequências por ser quem eu sou.

Após algum tempo, a fase da tristeza passou e começou a fase da proibição. Minha mãe não queria que eu atendesse o telefone, não queria que eu mantesse contato com ninguém, não deixava eu sair de casa, queria me excluir do mundo. Começou a fazer acusações, dizer que isso é como doença: “Você pega pela má influência das pessoas que estão a sua volta e não consegue mais parar”. Dizia que, quanto mais eu me interessava por isso, mais eu estava me afundando. Sempre dizia que não poderia permitir isso, pois quando Jesus voltasse, Deus ia exigir que ela prestasse contas pelas coisas erradas que ela permitiu que as filhas fizessem. Dizia que não podia aceitar, que não é normal, que eu era criança demais para decidir o que era bom para mim e o que eu queria realmente. Sempre fiquei calada, apenas engolia as palavras. Até o dia em que eu me estressei, disse pra mim mesma “Droga!!! Eu sei o que eu quero, ela não pode me tratar assim pra sempre. Uma hora ela vai ter que aceitar!”. Na discussão seguinte, assim que ela começou a fazer as acusações de sempre eu respirei e gritei: “Mae, você tem uma filha homossexual! Se conforma!!!”.

É… hoje eu penso que fui muito dura quando disse isso a ela de uma forma tão agressiva, mas se eu não dissesse aquela hora, não diria nunca mais. Ela ficou totalmente sem reação, com a boca aberta, os olhos arregalados, como quem tivesse recebido um soco no estômago. Foi para a sala, sentou no sofá e, assistindo tv, tentou digerir as palavras que acabara de ouvir.

Ela tinha uma filha de 13 anos, lésbica.

Okay! Agora eu era uma garota de 13 anos, lésbica, assumida e livre. Minha próxima preocupação era a minha namorada. E se os pais dela descobrissem por algum dedo-duro do colégio? Começamos a tomar cuidados redobrados para não haver problemas. Só que… lembra aquela minha “melhor amiga”? Pois é, quem é vivo, infelizmente, sempre aparece!

A tal “melhor amiga” ainda tinha amizade com a T. e começou a inventar mentiras descaradas pra tentar nos separar. Ela dizia que eu a traia pelas costas, ficava com outras garotas, que fazia maldades com ela. Distorcia tudo o que eu dizia e fazia a minha namorada pensar que eu era uma pessoa horrível. Só que, como a T. era uma garota esperta, um dia colocou a cobra de frente pra mim numa conversa. Foi quando tudo foi desmentido e a T. decidiu acabar com a amizade que existia entre as duas. Pena que, na época, a T. tinha muitas cartas trocadas com a tal cobra guardadas em seu quarto. A mãe dela um dia achou as cartas e descobriu que a filhinha dela não era o “anjinho” que ela pensava.

“Aonde está essa maldita garota?”, foi procurar a minha ex-”melhor amiga” pra acabar com a vida dela. Só que a espertinha já estava bem longe a essa altura do campeonato. Sobrou pra quem? Exatamente… pra mim.

A mãe da T. começou a fazer uma investigação sobre a vida da filha pra saber se não tinha nenhuma outra garotinha deturpando as ideias da queridinha dela. Eu, que amava aquela garota mais do que a mim mesma, e sabia que mais cedo ou mais tarde a mãe dela me encontraria, decidi terminar o namoro. Pensei comigo mesma: “Se a mãe dela descobrir sobre mim, vai tirá-la do colégio, talvez até de cidade (do jeito que ela é louca). Eu prefiro vê-la de longe todos os dias como uma desconhecida do que nunca mais vê-la”. E terminei.

(p.s.: A T. só descobriu o motivo pelo qual eu terminei há 1 ano, quando resolvemos conversar sobre o passado. Ela meio que não acreditou.)

No final das contas, a mãe dela tirou-a do colégio da mesma forma e se certificou de que sua filha não conseguisse manter contato com nenhum dos antigos amigos. A T. foi nos visitar escondido algumas vezes no colégio, mas nada foi a mesma coisa outra vez. Inclusive, ficou com dois garotos na minha frente depois disso.

Eu demorei anos pra esquecer aquela garota. Até hoje, quando lembro de tudo o que passamos, sinto um aperto no peito e uma vontade de voltar tudo atrás. Mas as coisas foram como tinham de ser. Se nada disso tivesse acontecido, eu não estaria onde estou hoje.

Essa foi a história de como eu perdi o meu primeiro amor.

Já que eu estava solteira e com as feridas de amor curadas, era hora de encontrar outra garota. Lógico que todas as garotas do colégio iriam se candidatar e logo logo eu estaria pegando umas gurias por aí, certo? ERRADO. Minha atitude de lésbica livre e assumida dentro do colégio não me trouxe bons resultados.

Todas as vezes que eu entrava numa sala tinha que aguentar gritos como “Hey, sapatão!”, “Fica longe da minha irmã”, “Sua doente!”, “Aberração!”, “Pega no meu p**”, etc… como se eu me importasse com o que aqueles babacas estavam dizendo. O problema não era eles estarem me insultando, o problema era o motivo pelo qual eles faziam isso. Até hoje é inexplicável como as pessoas podem ser tão desrespeitosas com as outras. Qual é? Não gosta de mim, então finge que eu não existo!

A coisa ficou pior depois de um tempo. Eu fiquei com uma garota do colégio e um grupo de garotos começou a me perseguir. Eles ficavam fazendo ameaças, se eu passasse perto da quadra chutavam bolas de basquete na minha direção. Mas eu não movia um dedo. Eu não ia me render e permitir que aqueles babacas mandassem na minha vida. Eu sou “sapatão” sim e com muito orgulho! Nenhum deles ia me colocar medo. Eles acabaram ficando muito estressados por verem que eu não correspondia as ameaças e terrorismos deles. Então, um dia eles decidiram ser piores. Quatros deles me esperaram no portão na hora da saída, eles tamparam minha boca e me arrastaram para dentro da quadra. Um ficou no portão para vigiar enquanto os outros três entraram. Eles começaram me xingando, fazendo ameaças, insultando, disseram que se eu queria ser homem, então ia ser tratado como um. Começaram a me bater. Eles me chutaram, deram socos, jogaram mochilas. Eu permaneci o mais firme que eu pude, não chorei, não gritei… aguentei até o fim.

Quando eles enjoaram de me bater e xingar, abriram a porta da quadra e simplesmente foram embora. Eu fiquei lá no chão torcendo para que nenhuma faxineira entrasse e descobrisse o que havia acontecido. Eu não queria que meus pais soubessem, não queria que ninguém soubesse, queria que aquilo fosse apagado pelo tempo e esquecido na minha memória. Os animais estavam satisfeitos, não iam mais me perturbar e eu seguiria minha vida. Foi o que fiz.

Vários anos se passaram… hoje tenho 18 anos, minha mãe já se conformou quanto a minha condição, não discute mais sobre isso, mas ainda não aceita, apenas respeita. Tudo bem, eu não posso cobrar demais dela. Hoje sei que ela sofreu tanto quanto ou mais do que eu, e que tudo o que ela fez e disse foi pensando no meu bem. Ela não queria que eu fosse assim, mas é porque ela sabia que eu iria sofrer e ela me ama demais para me ver sofrendo.

Eu sei que ela sempre esteve certa. Eu sofrerei por ser quem sou eternamente, serei condenada, injustiçada, subjulgada… mas nunca abaixarei minha cabeça, pois eu me amo, tenho orgulho de quem sou e nunca desistirei de ser feliz.

 

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Entre os 18 e 21 anos, eu passei muitas outras situações de preconceito e desrespeito. Fui recusada em entrevistas de emprego com a alegação “Não mantemos pessoas como você no nosso banco de dados”, tive que correr de skinheads, levei cuspidas de estranhos no rosto na rua, fui tratada com diferença… Tudo isso só serviu pra me tornar mais forte! Eu nunca me permiti ser diminuida, porque não sinto vergonha de ser homossexual, lésbica, gay, sapatão, fancha, biscoita, sapa, dyke… como você quiser chamar.

Meus pais hoje são totalmente tranquilos com a minha orientação sexual. Minha irmã apoiou desde o início, nunca teve problemas com isso. Minha mãe, ao perceber que eu continuo sendo a mesma filha responsável, trabalhadora, educada e carinhosa, deixou de se importar com essa questão e, hoje, apenas me aconselha a tomar cuidado com minhas atitudes fora de casa, pois o mundo é muito injusto. Sempre que aparece alguma reportagem sobre crime de homofobia na televisão, meus pais conversam comigo para saber se está tudo bem. Hoje, sei que sempre pude contar com eles em qualquer situação de agressão preconceituosa.

Eles já sabem do meu sonho de casar um dia e formar uma família com minha futura esposa. Houve uma longa conversa sobre esse assunto e estou tranquila por saber que, quando isso acontecer, meus pais visitarão a mim, minha esposa e minhas filhas em nossa casa. Eu mal posso expressar quão gratificante é a sensação.

Agradeço eternamente aos meus pais e minha irmã por terem sido tão rígidos na minha criação, cobrando sempre nos aspectos certos e me ensinando a ser uma guerreira. Eu tenho uma família maravilhosa que me cobre de carinho, amor e respeito. O ser humano correto que eu sou hoje é graças a vocês! Foi com vocês que eu aprendi que, se o amor é verdadeiro, ele passa por cima de tudo. Moisés (pai), Rose (mãe), Babi (irmã), Léo (cunhado) e Liv (afilhada)… EU AMO VOCÊS!!!

Gostaria de dizer a todas as meninas e mulheres, de qualquer idade, que estão passando pela situação de “saída do armário” nesse momento, que aquela campanha “IT GETS BETTER” é real. Realmente, as coisas acabam bem. Desde que você se mantenha forte e orgulhosa do ser humano que é, que não abaixe a cabeça independente da dificuldade apresentada, que você coloque o amor acima de tudo e lembre sempre que em primeiro lugar vem a sua felicidade. Mesmo que seus pais não aceitem logo de início, a partir do momento que eles te amam, mais cedo ou mais tarde colocarão esse amor acima de qualquer outra coisa. Compreenda que também não é fácil para eles e seja paciente. Trabalhar a confiança é sempre bom! Mostre que você ainda é a mesma pessoa. Se supostos amigos te virarem as costas, sinta-se feliz por ter se livrado deles, pois a amizade deles não era verdadeira.

Tive sorte de contar com o amor de amigos verdadeiros, que estiveram do meu lado durante todo o tempo e me ajudaram a levantar todas as vezes que eu cai. Amigos que até hoje lembram de tudo e fazem questão de me dizer que ainda estão aqui por mim, se eu precisar! Obrigada Mari, Nathy, Tati, Mari Negona, Fê, Dezça, Pri, Flávio, Marcão, Helô, Natasha, Nat, Rouge, Rafaela, Thammy, Thi Best… e alguns outros. Eu adoro vocês pra sempre. Vocês são maravilhosos!

E não se esqueçam: Ser homossexual não é um problema, é uma condição!

 

 


Written by Bianka Carbonieri
Autora do Sapatômica - 24 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, ex-estudante de Relações Públicas, atual expert em Social Media. Ítalo-brasileira, é viciada em café e lasagna.