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Já começou errado por aí!

Casamento Gay é permitir que duas pessoas do mesmo sexo casem-se de papel passado e ponto final. Casamento Igualitário significa que esse papel passado deve garantir os mesmos direitos civis de um casamento entre pessoas do sexo oposto.

Se eu sou chata? Muito! Porque é levando numa boa uma expressão coloquial como essa que o nosso dia-a-dia continua tendo falhas “coloquiais”. Algumas pessoas aceitam balas de menta como troco, mas nenhum supermercado aceita balas de menta como pagamento pelos produtos. Pode ser um exemplo bobo, mas leis funcionam da mesma forma: se houver uma única vírgula fora de lugar, todo o resultado é alterado. Não gosto quando falam Casamento Gay, porque eu não quero meu casamento sendo tratado como uma exceção do código civil, eu quero meu casamento sendo tratado como qualquer um.

Infelizmente, nós LGBTQs ainda nos encontramos numa situação na qual precisamos ficar lutando para obtermos direitos que deveriam nos ser garantidos sem questionar. Eu não gosto da palavra “comunidade” porque não somos minoria, eu não gosto de ter que protestar pelo direito de incluir minha parceira no plano médico porque eu não me sinto diferente das outras pessoas que ficam doentes, eu não gosto de ter que ficar levantando bandeira homossexual por onde eu passo porque isso não deveria ser necessário. Eu não sou uma militante LGBTQs porque eu gosto ou porque eu quero, eu sou porque infelizmente a sociedade ainda não me permite tomar minhas próprias decisões. De que adianta eu me sentir igual se vivo num planeta regido por leis e códigos que me excluem em várias cláusulas? De que adianta eu me sentir um cidadão igual todos os outros se em muitas situações minha família não é aceita? De que adianta eu me sentir e EU SER se as constituições não me resguardam?

Eu não luto pelos direitos LGBTQs porque eu quero, eu luto porque preciso! Porque se eu não lutar, eu não posso casar. Porque se eu não lutar, eu não posso decidir pela minha parceira numa necessidade de cirurgia de emergência. Porque se eu não lutar, eu vou apanhar na rua e não vou poder denunciar pelo real motivo. Porque se eu não lutar, eu não vou poder ter filhos e construir uma família. Porque se eu não lutar, eu não posso doar sangue para salvar pessoas que precisam, mesmo sendo compatível.


Agora você me pergunta por que eu disse tudo isso.

Eu disse tudo isso porque liguei minha televisão dias atrás para assistir o que deveria ser uma ação inédita da rede Globo de tentar passar uma mensagem de igualdade. E o que eu vi? Eu vi a mais poderosa distribuidora de informações desse país dizer que minha vida é perfeita, que tudo está bem, que todos os meus direitos estão garantidos e que eu estou reclamando de barriga cheia. Eu vi uma falsa satisfação disfarçada de “nós aceitamos o casamento entre gays”.

 


Fizeram uma simulação ao vivo de um casamento gay, todos felizes, o casal lésbico comemorando feliz, tudo lindo. Agora milhões de pessoas que não vivem os problemas cotidianos de um gay e assistiam ao programa naquele momento pensam que nós podemos mesmo nos casar. Não podemos!!! O Casamento Civil Igualitário não está aprovado, nós não podemos nos casar. O que podemos, no momento, é assinar uma união estável que não nos garante nem metade dos direitos necessários para uma vida conjugal completamente respaldada pela lei. Fora que depende da boa vontade de um juiz em autorizar a união após meses de muitos documentos, muita avaliação e burocracia.

 


A produção do programa levou uma criança, uma menina criada por um casal gay, e o apresentador Pedro Bial questionou sobre como era a reação dos colegas de escola dela quanto a ter dois pais. A garotinha respondeu “É legal! Meus amigos dizem que também queriam ter dois pais”. Eu não estou dizendo que a criança mentiu, estou dizendo que mais uma vez milhões de pessoas que não vivem os problemas cotidianos de uma família gay e assistiam ao programa naquele momento pensam que todas as escolas do Brasil estão super preparadas para lidar com situações como essa.

A verdade é que raramente encontramos um profissional de educação cem por cento preparado para lidar com casos de homofobia no ambiente de ensino – ou pelo menos que estejam dispostos a ajudar caso ocorra.

A verdade é que todos os dias crianças criadas por pais homossexuais sofrem de bullying homofóbico nas escolas, todos os dias crianças e adolescentes que se descobrem ou se assumem homossexuais/bissexuais/transsexuais em suas escolas sofrem bullying. E sabe o que é pior? Muitas das vezes os casos de homofobia ocorrem por parte dos próprios funcionários das escolas. E quando ocorrem por parte dos alunos, na maioria das vezes não é tomada nenhuma atitude por parte da administração para resolver. Eu posso dizer de boca cheia que acontece porque aconteceu comigo! Agora, claro que existem casos em que tudo corre bem mas, a partir do momento que é a menor porcentagem, colocar uma criança para falar ao vivo para milhões de pessoas que está tudo bem é o mesmo que gritar que o governo não precisa investir em educação anti-homofobia. Está errado!!! Precisa e é urgente!!!

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Agora uma opinião bem pessoal e que eu tenho certeza que muitas não vão concordar e vão passar a me odiar, mas eu preciso falar. Partindo do fato de que sofremos desde sempre com o estereótipo de que lésbicas são mulheres feias que não conseguiram homens e de que toda lésbica tem “trejeitos masculinos”, bem que o casting da maior emissora do país poderia ter se esforçado um pouquinho pra colocar um casal lésbico que fugisse disso, certo? Pode até ser que exista um certo teor negativo nessa minha sugestão, mas eu gostaria que tivessem chamado um casal de lésbicas que se encaixassem um pouco no padrão de beleza da sociedade e que fossem super femininas (de maquiagem, salto, vestido, etc). Não é por julgar a aparência física das participantes, mas é que eu estou tão cansada de ver gente falando que lésbica é “feia machona” que, só pra variar, eu queria esfregar na cara de todo mundo a quantidade de lésbicas ‘capa de revista’ que existem, só pra ver se param com esses comentários, porque ‘capa de revista’ e ‘padrão feio’ existe em todos os lugares e independe de orientação sexual. Aparência física independe de orientação sexual. Não dá pra generalizar! Parece uma sugestão superficial? Eu te garanto que não é. Tudo isso tem influência em níveis diferentes: desde o comentário de um agressor na rua até a expulsão de uma menina de casa porque a mãe diz “eu criei uma menina e não um menino”, ou até uma vaga de emprego negada porque a empresa acha que o menino gay vai “falar fino” no telefone com os clientes.

Logo depois que o programa terminou, minha mãe entrou no meu quarto elogiando a rede Globo e dizendo: Viu só? Viu como eles apoiam?

Foi necessária uma longa conversa com a minha mãe pra que ela compreendesse porque eu estava com uma tromba do tamanho do mundo na cara e esbravejando contra o programa. Eu comecei dizendo: “Mãe, aproveita esse momento porque não é toda família que tem um homossexual em casa pra explicar agora porque esse programa foi péssimo”. Por ter acompanhado muitos dos preconceitos e problemas que eu vivenciei por ser homossexual assumida, minha mãe conseguiu compreender alguns pontos, mas mesmo assim disse que eu deveria ter ficado feliz pela tentativa deles de fazer algo positivo.

O problema é que a sensação que eu tive assistindo esse programa foi exatamente contrária. Eu não conseguia entender se eles tentaram fazer algo bom e trazer mídia positiva para as causas LGBTTT ou se eles tentaram travestir de apoio o que na verdade era um “Shhhiu, gays! Fiquem quietinhos!”

O que eu vi no programa Na Moral foi uma chuva de mentiras. Foi a tentativa de mostrar pra toda uma sociedade que na verdade o ‘mundo gay’ é mesmo colorido, que é só alegria, só felicidade, que está tudo certo, que todo mundo está bem, a gente já tem tudo que precisa, não existe preconceito, estamos reclamando de barriga cheia e a vida é linda, um céu de brigadeiro com núvens de algodão. Cada bloco do programa me fazia repetir “Não é assim” e cada vez mais eu me percebi envolta pela preocupação: O que o Brasil vai pensar agora? O que o fulano que faz parte de uma classe social mais baixa e que tem menos acesso a informação vai pensar agora? O que a beltrana um pouco mais preguiçosa que não procura saber dos acontecimentos políticos vai pensar? O que os pais do menino que apanhou ontem na escola por usar uma calça jeans mais apertada vão pensar? O que os pais da menina que sofreu violência sexual, ‘estupro corretivo’ de um vizinho, vão pensar?

Meu medo é que, a partir do momento que a atual maior influenciadora da mídia joga na cara do povo brasileiro que tudo está bem, esse mesmo povo feche os olhos para os reais problemas. Que esse fulano pense que eu posso mesmo casar, que essa beltrana pense que Parada Gay é só micareta mesmo, que o pai desse menino ache que ele está mentindo quando contar que foi espancado, que os pais dessa menina não desconfiem quando ela chorar ao ver o vizinho se aproximar. Eu tenho medo que, enquanto eu estou aqui sentindo medo, todo mundo ache que é frescura minha, frescura de todos nós.

O programa Na Moral sobre Casamento Igualitário apresentado pela rede Globo pode ter sido algo bom, mas também pode ter sido um terrível vírus lançado no ar. E eu tenho medo. E enquanto eu temer pelo futuro, eu não vou parar de gritar.

 

 


Written by Bianka Carbonieri
Autora do Sapatômica - 24 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, ex-estudante de Relações Públicas, atual expert em Social Media. Ítalo-brasileira, é viciada em café e lasagna.