Texto da Leitora: “O Armário”, por Nathália Teixeira.

Só quem sofre com ele sabe como é difícil, nenhuma outra pessoa pode sequer imaginar ou entender.

O armário é um lugar escuro, pequeno e com cheiro de mofo, apertado. Você está dentro dele, mas também o carrega nas costas o tempo inteiro, sem possibilidade de largar para descansar nem por um segundo e nem de sair um pouco para esticar a coluna.

Por uma fresta da porta, é possível ver e ouvir o mundo lá fora com o qual você terá que lidar quando sair.

Você vê sua felicidade e tudo com o que você sonha. No entanto também vê violência, intolerância, homofobia e o olhar de reprovação dos seus pais, decepcionados.

Você ouve vozes te chamando para fora, te dizendo que tudo dará certo no final, essas vozes são daqueles que já passaram pelo que você logo passará. Mas você também ouve sua mãe dizendo que duas mulheres juntas é nojento, seu pai falando que é palhaçada, os noticiários divulgando índices cada vez maiores de mortes LGBT. Você ouve as pessoas rindo, ouve piadinhas sem sentido, ouve gente dizendo que é escolha, que é pra chamar atenção.

Pessoas na igreja e em casa dizendo que você precisa amputar a parte que te afasta de Deus, se desfazer daquilo que não é da vontade dEle. E você sofre porque dói muito, você não quer isso e preocupa-se antecipadamente com a reação das pessoas quando você contar que não vai mudar.

Na porta do armário, virado para o lado externo, há um espelho. Por causa dele, você, durante muito tempo, refletiu o comportamento do mundo a sua volta. Você dizia que era errado, sentia nojo, fazia (e faz) cara de reprovação quando o assunto é a homossexualidade, dizia que não conseguia se imaginar com outra menina – disse tanto que até acreditou por um tempo.

“E me disseram o que eu era
o que eu fui
onde fui
O devaneio discreto que chamamos de ser
O que esperam de nós
O que procuram em nós
E o que querem que nós queiramos não saber” – Sobras, Camila Garófalo.

E chega o dia em que você se da conta desse armário, percebendo todo o incômodo que ele te causou durante a vida, antes você mentia tanto para si mesma que ignorava solenemente a existência dele e a dor já havia se tornado parte de quem você era. Então o armário se tornou mais apertado e mais pesado.

Você se questionava, e em certo ponto já não aceitava que era isso mesmo que estava acontecendo com você.

“Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.” – Quase sem querer, Legião Urbana.

Até que um dia, sozinha no quarto, você saiu e largou o armário do lado, no chão. Respirou, esticou-se, cresceu, ampliou seus horizontes. Enxergou claramente o mundo que te esperava, ouviu e viu tudo aquilo que você sonhava.
Virou-se e viu, ali no chão, o armário com o espelho na porta. Naquele momento o espelho que antes refletia pensamentos e comportamentos intolerantes, agora refletia você, fora do armário, sendo quem realmente é e então você se conheceu. A raiva tomou conta e você sentiu vergonha por tudo que fez e refletiu através daquele espelho e dentro daquele armário, não era você. E num impulso socou o espelho, que quebrou. Sua mão agora sangrando é o escape de toda dor que o armário e as atitudes refletidas e mentirosas te causaram.

Dali em diante você se conhecia e não era nada do que esperavam, do que te ensinaram. Isso te causou excitação e dor. O soco que você deu no espelho foi de raiva pelo passado mas também foi de não aceitação pelo que você é. Não é fácil.

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Você precisou entrar novamente nele, esconder seu eu, se apertou para caber. Segurou o armário nas costas e, prostrada, se apresentou para o mundo.

Agora o armário está menor e mais pesado. Afinal, você já saiu uma vez e sentiu a leveza de ser livre dele, de não carregá-lo. Agora você sabe como você é maior que tudo aquilo e como o ar é puro do lado de fora.

“A mente que se abre para um nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.” – Albert Einstein.

O armário já não era o mesmo, já não te protegia como antes. O espelho, quebrado, muito mal refletia o mundo fielmente. Pelos buracos, deixados pelos cacos que caíram, pode-se te ver, encolhida e triste num canto do armário.

Você já não era a mesma, já se conhecia e estava se aceitando. Pelos buracos no espelho vê mais do mundo intolerante e percebe coisas que antes não percebia. Sua mão machucada dói cada vez mais e te lembra do dia em que você saiu.

As pessoas estão vendo as mudanças. Algo está errado. Isso é óbvio. Sua mãe logo vai descobrir, a percepção dela sobre as coisas é absurda e não falta muito pra ela ver o armário, o espelho quebrado e os buracos pelos quais você deixa aparecer seu eu triste e agoniado. Só resta saber se ela vai te abraçar e cuidar das suas dores ou se vai te empurrar de volta e trocar o espelho. Talvez ela até leve você e o armário para o conserto. E então trancar a porta.

A angústia de estar dentro do armário mais o peso dele constantemente sobre suas costas te fazem cada vez mais querer sair. Mas as consequências disso te deixam com medo e preocupada. Tudo que você quer é coragem para sair e colocar o armário no chão, o abandonando e seguindo em frente. Um dia vai acontecer.

Até lá seja forte. O armário ocupa sua mente e desgasta seu corpo insistentemente, não tem como fugir. Mas não deixe nada que vier de fora te atingir, nem que o peso do armário te impeça de andar e nem que suas portas te segurem onde você está. Aos poucos, arranque os cacos que restaram do espelho, vai te machucar, mas mostre quem você é para o mundo.

No final, vai dar tudo certo. Pelo menos é no que eu quero acreditar.

*Autora: Nathália Teixeira

Written by Bianka Carbonieri

Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante de Psicologia, é viciada em café e lasagna.