“Você deveria f*d*-la pra ela perceber logo que é gay!”

Finalmente está rolando uma grande onda de denúncias sobre os abusos sexuais contra mulheres que assombra Hollywood há décadas. Cada dia atrizes se sentem mais fortes para contar situações traumatizantes que viveram nas mãos de atores e diretores, homens protegidos pela fama no cinema.

Essa semana, a vez foi de Ellen Page, que denunciou em um post no Facebook situações de homofobia vividas durante as gravações de X-Men praticadas pelo diretor Brett Ratner.

Ela também aproveitou o momento para citar falar sobre outras situações de abuso sexual vividas durante a adolescência no cinema e citou nomes da lista de abusadores de Hollywood e questionou: “Se pessoas com privilégio significativo na mídia continuam relutantes e com medo de simplesmente citar nomes, quais são as opções para aquelas que não tem o que temos?”

Confira o texto na íntegra (tradução livre Sapatomica):

“Você deveria f*d*-la para ela perceber logo que é gay.” Ele disse isso sobre mim durante um encontro com o casting antes de começarmos a filmar X Men: The Last Stand. Eu tinha dezoito anos. Ele olhou para uma mulher que estava perto de mim, dez anos mais velha que eu, apontou para mim e disse: “Você deveria f*d*-la para ela perceber logo que é gay.” Ele era o diretor do filme, Brett Ratner.

Eu era uma jovem adulta que ainda não tinha saída do armário para si mesma. Eu sabia que era gay, mas não sabia, digamos assim. Me senti violada quando isso aconteceu. Olhei para os meus pés, não disse uma única palavra e assisti aos outros fazerem o mesmo. Esse homem, que tinha me escalado para o filme, começou nossos meses de filmagem num evento de trabalho com esse horrível pedido. Ele “me tirou do armário” sem se preocupar com meu bem estar, um ato que todos reconhecemos como homofóbico. Eu o assisti diversas vezes no set dizendo coisas degradantes a outras mulheres. Lembro de uma delas andando em direção ao monitor enquanto ele comentava algo sobre “sua b*ceta flácida”.

Todos temos direito a tomar consciência de nossa orientação sexual de maneira privada e com nossos próprios termos. Eu era jovem e, apesar de já trabalhar como atriz por algum tempo, fui de muitas maneiras isolada, crescendo em sets de filmes ao invés de cercada por meus colegas. Essa “tirada de armário” pública e agressiva me fez sentir vergonha por muito tempo, um dos resultados mais destrutivos da homofobia. Fazer alguém sentir-se envergonhado por ser quem é uma manipulação cruel, criada para oprimir e reprimir. Me foi roubada mais do que minha autonomia de autodefinição. O comentário de Ratner ficou repetindo em minha mente muitas e muitas vezes por anos conforme esbarrei com outras situações de homofobia e lidei com sentimentos de relutância e incerteza sobre a indústria e meu futuro nela. A diferença é que agora posso me afirmar e usar minha voz para lutar de volta contra atitudes LGBTfóbicas em Hollywood e além. Felizmente, tendo a posição que tenho, posso ajudar pessoas com dificuldade em ser aceitas e permitidas a ser quem são – a prosperar. Pessoas jovens vulneráveis sem minhas vantagens são diminuídas com tantas frequência e as fazem acreditar que elas não tem a opção de viver a vida que deveriam liderar com felicidade.

Tive uma discussão com Brett em determinado momento. Ele estava me pressionando na frente de muitas pessoas para usar uma camiseta escrito “Time Ratner”. Eu disse não e ele insistiu. Eu respondi “Eu não estou no seu time.” Mais tarde naquele dia produtores do filme vieram ao meu trailer para dizer que eu “não poderia falar daquele jeito com ele.” Eu estava sendo reprimida, mas ele não estava sendo punido ou demitido por seu comportamento completamente homofóbico e abusivo que todos testemunhávamos. Eu era uma atriz que ninguém conhecia. Eu tinha dezoito anos e nenhuma ferramenta para saber como lidar com a situação.

Sou atriz profissional desde os dez anos. Tive a sorte de trabalhar com muitas pessoas honradas e colaboradores respeitáveis, na frente e atrás das câmeras. Mas o comportamento que descrevo é ubíquo. Eles (abusadores) querem que você se sinta pequeno, inseguro, querem que você sinta que deve algo a eles, ou que suas ações são as culpadas pelo comportamento deles.

Quando eu tinha dezesseis, um diretor me levou para jantar (uma obrigação profissional bastante comum). Ele colocou a mão na minha perna embaixo da mesa e disse “Você tem que tomar a atitude, eu não posso.” Eu não tomei a atitude e fui sortuda de conseguir fugir daquela situação. Foi uma conscientização dolorosa: minha segurança não era garantida no trabalho. Uma figura de autoridade adulta para a qual eu trabalhada tentou me explorar, fisicamente. Eu fui abusada sexualmente meses depois. Um diretor me pediu para dormir com um homem de vinte e poucos anos e depois contar como foi. Eu não fiz isso. Isso é apenas o que aconteceu durante meus dezesseis anos, uma adolescente na indústria do entretenimento.

Olhe para o histórico de tudo que aconteceu com menores que denunciaram abuso sexual em Hollywood. Alguns deles nem estão mais conosco, perdidos para abuso de substâncias e suicídio. Seus agressores? Ainda trabalho. Protegidos até memso enquanto eu escrevo isso. Vocês sabem quem eles são; eles são discutidos atrás de portas fechadas. Se eu, uma pessoa com privilégio significante, continuo relutante e correndo risco ao simplesmente citar o nome de uma pessoa, quais são as opções para aqueles que não tem o que eu tenho?

Leia também:  Mulheres são bissexuais ou lésbicas, nunca heteros.

Vamos lembrar que a epidemia de violência contra mulheres em nossa sociedade afeta desproporcionalmente mulheres pobre, particularmente mulheres negras, trans, queer e indígenas, que são caladas por suas situações econômicas e profunda desconfiança do sistema judiciário que protege os culpados mesmo frente a evidências inegáveis e continuam oprimindo pessoas negras. Eu tenho condições de contratar segurança caso me sinta ameaçada. Eu tenho dinheiro e plano de saúde para receber tratamento. Eu tenho o privilégio de possuir uma plataforma que me permite escrever isso e publicar, enquanto a maior parte das pessoas marginalizadas não tem acesso a esses recursos. A realidade é que mulheres negras, trans, queer e indígenas têm liderado essa luta por décadas (desde sempre, na verdade). Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Winona LaDuke, Miss Major, Audre Lorde, Bell Hooks, para mencionar algumas. Misty Upham lutou incansavelmente para acabar com a violência contra mulheres indígenas, trabalhadoras domésticas e mulheres sem documentação. Misty foi encontrada morta embaixo de um penhasco, disseram que foi estuprada numa festa por um executivo da Miramax. As pessoas mais marginalizadas são deixadas para trás. Como mulher cis, branca e lésbica, tenho me beneficiado de privilégios, por conta desses indivíduos extraordinários e corajosos que lideraram o caminho, arriscando suas próprias vidas. A supremacia branca continua silenciando pessoas negras, enquanto possuo meus direitos por causa delas. Elas são as pessoas que deveríamos estar ouvindo e com as quais deveríamos estar aprendendo.

Esses abusadores nos fazem sentir sem poder e sobrecarregados por seus impérios. Não vamos nos esquecer da Suprema Corte e do Presidente dos Estados Unidos. Um acusado de abuso sexual por Anita Hill, cujo depoimento foi descreditado. O outro orgulhosamente descreve seu próprio padrão de abusos a um repórter de entretenimento. Quantos homens na mídia – titãs da indústria – precisam ser expostos para finalmente compreendermos a gravidade da situação e demandar a segurança e respeito fundamentais que é nosso direito?

Bill Cosby era conhecidamente um predador. Os crimes eram dele, mas muitos foram cúmplices. Muitos outros escolheram olhar para o lado. Harvey era conhecidamente predatório. Os crimes eram dele, mas muitos foram cúmplices. Muitos escolheram olhar para o outro lado. Continuamos celebrando filmes de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma garota e fugiu da sentença. Um fugitivo da justiça. Eu ouvi a indústria criticar o comportamento de Weinstein e prometer mudanças significativas. Mas vamos falar a verdade: a lista é longa e ainda protegida pelo status quo. Temos trabalho a fazer. Não podemos olhar para o outro lado.

Eu fiz um filme do Woody Allen e esse é o maior arrependimento da minha carreira. Tenho vergonha por ter feito isso. Eu ainda tinha de encontrar minha voz e não era quem sou agora, me senti pressionada, afinal, “é claro que você deve dizer sim a esse filme do Woody Allen.” É minha escolha decidir quais filmes fazer e eu fiz a escolha errada. Cometi um terrível erro.

Eu quero ver esses homens encarar o que fizeram. Eu quero que eles não tenham mais poder. Quero que sentem e pensem sobre quem são sem seus advogados, milhões de dólares, carros chiques, casas e casas, seu status de “playboy”.

O que eu mais quero é que isso resulte em cura para as vítima. Pra que Hollywood acorde e comece a tomar responsabilidade por como todos nós tivemos um papel nisso. Eu quero que a gente reflita sobre esse problema e como essa dinâmica de poder e abuso leva a uma enorme quantidade de sofrimento. Violência contra mulheres é uma epidemia nesse país e ao redor do mundo. Como essa cascata de imoralidade e injustiça está moldando nossa sociedade? Um dos maiores riscos para a saúde de uma mulher grávida nos Estados Unidos é o assassinato. Mulheres negras trans tem uma expectativa de vida de trinta e cinco anos. Por que não estamos refletindo sobre isso como sociedade? Precisamos lembrar das consequências de nossas ações. Saúde mental, suicídio, distúrbios alimentares, abuso de substâncias, para listar algumas.

O que estamos com medo de dizer e por que não podemos dizer? Mulheres, particularmente as marginalizadas, são silenciadas, enquanto abusadores poderosos podem gritar alto como quiserem, mentir o quanto quiserem e continuar lucrando em meio a tudo isso.

Esse é uma apuração esperada. Tem de ser. É triste que “códigos de conduta” tenham que ser reforçados para garantir direitos humanos, decência e respeito. Inclusão e representação são a resposta. Aprendemos que o status quo perpetua de forma injusta, vitimizando comportamentos para proteger e perpetuar a si mesmo. Não permitam que esses comportamentos sejam tratados com normalidade. Não compare erros ou atos criminais por seus níveis de severidade. Não sejam surdos às vozes das vítimas que estão se posicionando. Não pare de exigir nossos direitos civis. Eu sou grata a todos que se posicionam contra o abuso e o trauma que sofreram. Vocês estão quebrando o silêncio. Vocês são a revolução.”

Written by Bianka Carbonieri

Insta: @bsapatomica | 26 anos, taurina, mora em São Paulo. Workaholic assumida, estudante de Psicologia, é viciada em café e lasagna.